Me canso cada dia mais dos ditos marxistas ortodoxos com quem eu tenho debates dos mais infrutíferos. Tudo porque eu sou uma fã incondicional das liberdades individuais, do poder do indivíduo e na nossa habilidade de guiar nossas próprias vidas nem a intervenção, ou opinião, de um ser supremo que seja. Meu flerte com o anarcocapitalismo começou quando eu cometi a insensatez de dizer, num debate no vão da história da FFLCH, que eu realmente não achava que a culpa de todos os males do mundo era das multinacionais, das grandes fortunas, enfim, de todos os Judas que os pseudocomunistas que-não-são-do-Jaçanã gostam de malhar. Mas isso não importa.
O objetivo da minha reflexão matutina se resume à citação de uma amiga virtual: se o jogo está ruim, é porque nós estamos jogando errado. Tudo porque eu sou um indivíduo dos mais práticos: se você não está feliz com um produto, deixe de consumi-lo. Se todos não estamos felizes com um produto e todos deixamos de consumi-lo, ele acaba. Simples, fácil e indolor. O consumo, como o voto, é uma ferramenta para exigir mudanças.
O problema mora na nossa irresponsabilidade. É fácil pregar mudanças, a guerra ao sistema e a luta de classes sentado num sofá produzido por trabalhadores em condições de escravos, fumando a maconha que alimenta o crime organizado, usando roupas de marcas que são notadamente exploradoras de mão de obra e de países inteiros e usando cosméticos testados em animais. É fácil dizer VETA DILMA e NÃO A BELOMONTE lavando o cabelo com shampoo Elseve.
Difícil é tomar uma decisão. Seus hábitos de consumo deveriam exigir toda a sua capacidade de questionamento e refletir seu conhecimento sobre esta ou aquela indústria. Ficar falando é fácil, cara-pálida. Difícil é fazer e acontecer.
Difícil é parar de consumir produtos chineses porque você acredita que ao fazê-lo está estimulando uma indústria predatória, que sustenta um governo cuja política do filho ano culmina no assassinato sistemático de bebês do sexo feminino.
Difícil é deixar de comprar algo que você gosta e se identifica porque a estratégia de propaganda da empresa te dá nojo. Acho exagerado quando o governo quer interditar a propaganda da Hope com a Bundchen pregando que mulher tem mais é que ser gostosa e retardada, mas eu faço a escolha pessoal de não consumir o produto de uma empresa que me vê dessa forma. É uma merda, não consigo mais achar calcinhas que eu gosto.
Olha só a conclusão curiosa na qual eu chego: os que se dizem a força-motriz da mudança social, estão confortavelmente sentados em suas casas fazendo nada para que essa mudança ocorra. E nós, pessoas que acreditam no poder do indivíduo, estamos, sozinhas, buscando uma pequena vitória atrás da outra.
Pra resumir e concluir: dia de uma descoberta que não vai descer bem, culminando com um momento de revolta que explodiu em palavras. Vamos apreciar o silêncio um minuto?
Ademais: minha opinião não está à venda, não adianta mostrar a tabela de preços. Gracias, volte sempre.